
Li nestes dias, numa tacada só, a "Saga Lusa" de Adriana Calcanhotto. De cara já eleito o melhor dos melhores de 2009, venha o que vier. O livro é ótimo. A linguagem "blogues", descompromissada, meio diário, nos coloca bem ao ladinho da gaúcha enquanto ela vai surtando em terras de Camões por conta de uma mistura de remédios para curar uma simples gripe. Pura antítese, a gente se diverte enquanto ela enlouquece. Tiração de sarro com sí próprio. Uma belezura.
"Eu prossigo:
- É sério, por favor. Não sou dramática, quer dizer, só um pouquinho, mas nem sempre, ou enfim, me ajude, estou morrendo."
Ou então
"Que não papo o Jabuti com estas linhazinhas? Meu Deus, que horror, o que estou dizendo, sou vegetariana, tô doida de pedra mesmo, agora sim, me chamem os homens de branco!
Minha mãe sempre me disse que um dia eu ia escrever um livro, gozado. A gente se esforça, batalha, luta, faz psicanálise, vai ao teatro, tudo pra se constituir, pra ter recorte. Aí, na primeira surtadinha faz o quê? O que a mamãe queria. Não sei não, achei meio caído"
Auto-biografia-de-recorte. E falando em recorte, a capa também é ótima, composta de pedaços de caixas de remédio que a própria Calcanhotto compôs, para se acalmar.
Depois disso, eu, que estou com uma gripe fortíssima, nem me atrevo a tomar remédio algum. Não tenho pretenções literárias. Apenas liguei para o trabalho e disse que não iria. Afinal, não é nada bom ficar cortando tomates com o nariz escorrendo.
dl